Fonte: Veja

São Paulo é a cidade mais negra do país. Com 37% de negros entre os seus 11 milhões de habitantes, o número é quase duas vezes a população de Salvador, capital do Estado da Bahia, onde os negros representam 82,% da população. A riqueza de São Paulo foi construída primeiramente sobre os ombros dos negros escravizados nos cafezais e depois entre os proletários negros da nascente indústria e dos serviços urbanos.

Substituídos pela mão de obra imigrante no final da escravidão, eliminados da vida politica pela exigência de posses, renda e alfabetização para participar do processo político e descartados pelo mercado pela baixa capacidade de consumo, ao negro vitimado pela violência do racismo que estruturou a sociedade daquela época aos dias atuais somente restou lutar contra o apartheid racial, o genocídio e limpeza étnica e estética que se instalou.

E, curiosamente, tanto lá quanto cá, os negros restaram excluídos e ausentes de participação politica e econômica. Basta lembrar que o único prefeito negro da história da cidade de Salvador foi o Professor Edvaldo Brito, nomeado por voto indireto, em 1978. E, na cidade de São Paulo, Paulo Lauro, nomeado em 1948, e Celso Pita, eleito pelo voto popular em 1997.

Segregados nos bairros periféricos e longe de todos os benefícios da infraestrutura urbana da cidade, os negros paulistas esgrime para manterem-se visíveis na cultura, na arte e na estética oficial paulistana, bem como alcançar a inclusão e participação econômica e social. Lutam bravamente para superar a camisa de força do racismo, garantir respeito e tratamento justo e igualitário. Lutam para alcançar representatividade e influir nos destinos da cidade.

Fruto destacado dessa luta histórica, foi a conquista da criação do feriado municipal do Dia Nacional da Consciência Negra, pela Prefeita Marta Suplicy, da Lei de Cotas para negros nos Concursos públicos da prefeitura e da Secretaria Municipal da Igualdade Racial, pelo Prefeito Fernando Haddad, da Universidade Zumbi dos Palmares, com o apoio do prefeito Gilberto Kassab, do Museu dos Aflitos, no bairro da Liberdade, antigo cemitério dos negros escravos; da estátua de Tebas, da nomeação de doze escolas com o nome de personalidade negras pelo prefeito Bruno Covas.

Principalmente, a elevação dos negros na vida politica e na Câmara Municipal. Pela primeira vez, três secretárias negras participam do governo do prefeito Ricardo Nunes. Pela primeira vez na história paulistana, onze dos 55 vereadores se autodeclaram negros. Um é declaradamente homossexual, um transexual, e outro, o vereador Milton Leite é o presidente da Câmara.

Como se vê transformações fantásticas realizadas por uma luta permanente, coletiva e corajosa ainda que no começo e que já rende bons frutos para todos. Para a democracia, para justiça e para a inclusão e valorização da diversidade social e racial paulistana. Tem sido coisa de preto e coisa de branco.

Contra tudo isso, por insensibilidade, capricho, vingança, frustração ou tão somente maldade, os vereadores da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Municipal em cumplicidade com o vereador negro Fernando Holiday acabam de aprovar o projeto de sua autoria que extingue as cotas no serviço público para negros nos concursos público municipal. Depois, certamente virão as demais revogações.

Para todos aqueles que têm sede de justiça, compromisso com a luta e comprometimento com a mudança, o progresso e a evolução tem-se um bom motivo para gritar em alto e bom som aos senhores vereadores que as cotas importam. E, para o presidente da Câmara e vereador negro Milton Leite, a grande oportunidade de defender com energia e vigor a manutenção da lei de cotas, que são coisas dos pretos, mas também coisas dos brancos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *