José Vicente para a Folha de S. Paulo

O negro João Alberto Silveira Freitas, 40, foi assassinado a socos em um Carrefour de Porto Alegre. O negro Pedro Henrique de Oliveira Gonzaga foi morto estrangulado em um supermercado Extra no Rio de Janeiro. Os negros Bruno, 29, e Yan Barros da Silva, 19, tio e sobrinho, foram aprisionados no Atakadão Atakarejo, em Salvador, entregues a traficantes de drogas e assassinados a tiros. Um jovem negro de 17 anos foi despido, amordaçado e chicoteado com fios elétricos no supermercado Ricoy, em São Paulo. O negro Luiz Carlos da Silva, 56, foi forçado a se despir na frente de clientes na loja do Assaí Atacadista de Limeira (SP). O negro e imigrante congolês ​Moïse Mugenyi Kabagambe, 24, teve amarrados mãos e pés e foi assassinado a pauladas num quiosque de praia na Barra da Tijuca, no Rio. E a negra Ana Paula Barroso, delegada de polícia, foi impedida de entrar na loja Zara do Shopping Iguatemi de Fortaleza.

Como se vê, nos ambientes de consumo simples ou prestigiados do país, o impacto da intolerância racial tem protagonizado uma rotina de brutalidade e selvageria contra os cidadãos consumidores negros. Resultado de ignorância, indiferença e impunidade, os ecossistemas do consumo e da segurança privada transformaram-se em permanentes emissores de intolerância racial, expandindo seus efeitos para toda a atmosfera social —e, impunemente, naturalizando um tratamento ofensivo, discriminatório e degradante, que impede ao negro a garantia constitucional da igualdade e o direito humano da liberdade de ir, vir e permanecer com segurança no espaço público do consumo.

Era preciso colocar-se de pé. Com a coordenação da Universidade Zumbi dos Palmares e o apoio do Conselho Nacional de Justiça, Ministério Público Federal, Defensoria Pública (SP), Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial, Unicamp, Secretaria Municipal de Mudanças Climáticas (SP), Procon-SP, Fecomercio, IDV (Instituto para Desenvolvimento do Varejo), Apas (Associação Paulista de Supermercados), Fenavist (Federação Nacional das Empresas de Segurança e Transporte de Valores), Abcfav (Associação Brasileira de Cursos de Formação e Aperfeiçoamento de Vigilantes), Conselho da Comunidade Negra (SP), Unegro (SP) e colaboração das empresas Vivo e Cielo, lançamos nesta sexta-feira (13), Dia da Abolição da Escravatura, o Programa Racismo Zero nas Relações de Consumo e na Segurança Privada.

Com o Procon Racial, a Certificação Ambiente Empresarial Seguro Contra o Racismo e a plataforma Acolhe! de apoio social, jurídico e psicológico às vítimas, atacaremos com inteligência artificial as transgressões raciais no consumo e implementaremos carta de princípios, Manual de Educação Antirracista Consumerista, cláusula antirracista nos contratos com fornecedores e prestadores de serviços e qualificação de colaboradores e terceiros para prevenir e combater o racismo no espaço corporativo e na segurança privada.

Temos consciência de que será um trabalho longo e hercúleo, mas preferiremos ousar a compactuar com uma liberdade como engodo e uma igualdade tão somente como quimera.

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